terça-feira, 24 de abril de 2012


E se depois de tudo isso eu ainda estiver de pé, pode ser que ainda tenha chão. E se tiver chão, estando de pé, eu vou poder caminhar. Se estou de pé, é porque Você está comigo, e vou andar, porque Você vai continuar comigo.
Porque andar sem Você não dá. E sem Você, eu caio. Continuo no chão, sem Você, se não estou de pé. E se estou de pé, com certeza, sem Você, eu vou cair.
Mas se Você estiver aqui, eu sei que vai pegar na minha mão, e além de colocar um chão duro e real debaixo dos meus pés e me mostrar o caminho, vai me levar até onde quer que eu chegue. E o que eu sei é que Você vai estar aqui. Que Você está aqui e vai ficar... Aqui.
E a Sua mão... A mão Sua, que vai segurar na minha pra me levar até onde Você quer que eu chegue... É a mão que me guarda. É debaixo de onde eu quero ficar. A Sua mão, que é a cama mais macia, a casa mais confortável, o melhor descanso pra minha cabeça...
Pai...
E depois de tudo isso eu vejo que nem a metade de tudo o que Você fez por mim é o que eu merecia. Depois de tudo eu não mereci Sua mão. Eu não mereci, mas Você me ama.
E eu também não mereço o Seu amor.
Mas Você me ama. E eu? Eu te amo. Eu te amo e sei... E reconheço que foi só por causa da Sua mão que eu estou de pé e que tem chão de baixo de mim pra eu poder andar. E que é Você quem vai me levar aonde Você quer que eu chegue. Porque Você quer que eu chegue lá.
Ainda que o chão seja de areia e não tenha água nenhuma por perto, ainda que eu esteja com sede, e quase não esteja conseguindo permanecer de pé, do jeito que Você me deixou, a Sua mão vai me manter de pé... Como Você fez antes. E eu vou chegar até onde tem água, porque vai ter... Você prometeu que teria água. E Você quer que eu beba.
Que eu sobreviva. Que eu viva. Em abundância.
Eu reconheço, Pai. Reconheço a fraqueza escrita na minha testa se eu estou longe de Você. A fraqueza gritando nos meus ouvidos, sem o Seu amor. E não dá. Não dá pra ficar sequer um dia longe disso. Da Sua mão. Do Seu amor.
Dói, Pai. Dói quando eu acordo do meu eu e vejo que não deixei Você entrar. Dói quando eu vejo que, na verdade, eu não estava vendo nada antes de Você chegar. E Você tem mais amor pra mim, porque Você é meu Pai. Meu Pai, que me perdoa. E que me ama. O meu Pai, a quem eu amo...
E eu sei... Ah, Pai, eu sei mesmo... Que eu posso ficar horas aqui tentando achar uma palavra... Uma única palavra que seja melhor do que simplesmente obrigado, e eu nunca vou encontrá-la.
Se isso for suficiente, eu quero dar a minha vida. Por tudo. Por tanto amor. Pela Sua mão, que me abriga e que me acalma, que segura na minha pra poder andar, depois de ter me colocado de pé e de ter me posto num chão, onde dá pra andar. A minha vida, Pai de amor.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Não é fácil ser um ser humano. Ter cabelo que embaraça, pele que queima, pés que doem, olhos que ardem. Não foi fácil ser bebê. Deve ter sido difícil não saber falar, apenas chorar e ninguém entender porque não existe um dicionário de choro. Não foi fácil ter crescido um pouco mais, chegar naquela fase em que só nós queremos estar certos e em que a atenção dos quatro cantos da terra deve estar voltada apenas para nós. Entrar na adolescência é a pior coisa que acontece ao longo da vida: crises de identidade, complexos, dramas e todas essas coisas que nós sabemos. E Deus se fez um ser humano só pra passar por tudo isso. Tudo. Ele era Deus, mas também era homem quando esteve aqui. Tinha pele que queimava e pés que doíam. Era gente como eu e você.

Nós vivemos reclamando da falta de dinheiro pra comprar aquilo que tanto desejamos. Celular, carro, computador, roupas, roupas, roupas. Não damos tanta atenção aos mais humildes e às vezes dizemos que não gostamos de gente pobre. E Deus se fez um ser humano para não ser rico. Deus se fez um ser humano e foi pobre. Ele era Deus, por que não tinha toda a riqueza da terra? Exatamente por ser Deus.

Dizemos que não conseguimos esperar. Ouvimos em toda parte a opinião espantada de todos a respeito dos que querem casar virgens. Dizemos que não conseguimos aguentar. Dizemos que é difícil, que é impossível. Jesus foi virgem até a última gota de sangue. Durante trinta e três anos. Ele suportou. Pra ele não foi impossível. Mas ele era Deus. Sim, era espírito, mas também era carne! Ele suportou e não foi impossível só porque era Deus, mas porque ele queria ser santo.

Deus se fez um ser humano santo. De carne, osso e espírito. Mas ele quis ser santo. Não quis andar em pecado. Ele quis, ele decidiu que seria assim, e pronto! E nós reclamamos que as coisas são difíceis porque não aguentamos, dizemos que queremos, mas não conseguimos. No fundo, talvez, não queiramos.

Muitas vezes dizemos não aguentar o peso que carregamos. Muitas vezes estamos fartos de tanta gente olhando pra nós, falando de nós, zombando de nós, nos criticando e querendo nos ferir moralmente. Deus se fez um ser humano e por onde ia, havia escarnecedores. Havia aqueles que zombavam dele, que zombavam quando ele dizia ser filho do Deus vivo. Que zombavam, incrédulos, quando ele fazia algum milagre. Que zombavam quando ele dizia que são felizes os perseguidos. Ele foi perseguido, até a última gota de sangue.

Ele pediu pra não carregar aquela cruz, mas quis a vontade do Pai dele. Até aí ele quis ser santo. Até aí ele obedeceu. Honrou seu pai. E assim teve que acontecer.

E então ele andou arrastando aquela cruz que, sabe-se lá quantas vezes o seu peso ela tinha. Ele devia estar cansado. Imagino que ele tivesse chegado aonde tinha de chegar, respirando ofegante, não suportando mais aquele peso. E então, depois disso ele ficou suspenso apenas pelas mãos e pelos pés. Com todo o peso de seu corpo prendendo pra frente, e aqueles pregos que deviam estar enferrujados, ameaçavam arrancar seus pés e suas mãos, com todo aquele peso puxando-o para frente. Ele apanhou muito. Ninguém gosta de apanhar de pai e mãe. E não era o pai dele quem estava batendo. Ele não havia feito nada de errado, absolutamente nada.

E aí o sangue começou a verter. Cada gota. Cada gota por cada pessoa que existe, existiu e vai existir na terra. Uma gota pra mim, uma pra você, uma pra o seu pai, pra sua mãe. Uma pra aquele menino pobre da sua rua, que você não gosta. Uma pra o seu professor. Uma pra aquela pessoa que te contou que quer casar virgem e que você zombou dela. Uma pra cada um daqueles que zombaram dele mesmo. Uma pra cada um daqueles que não mereciam meia gota de seu sangue. Ele derramou sangue pra todo mundo.

Por quê? Ele não precisava ter feito isso...

Mas nós precisávamos que ele tivesse feito isso. Nós não merecíamos, não merecemos. Mas precisamos desse sangue. Porque foi esse sangue que lavou o nosso desgosto por gente pobre, a nossa impaciência, a nossa compulsão, o nosso medo, nossas crises de adolescente.

E ele só fez isso porque nos ama, não tem outra explicação.